Ulisses
Trecho do livro “Ulisses”, de James Joyce
Leopold Bloom comia com gosto os órgãos internos de quadrúpedes e aves. Apreciava sopa de miúdos de aves, moelas amendoadas, um coração assado recheado, fatias de fígado empanadas fritas, ovas de bacalhoa fritas. Mais do que tudo gostava de rins de carneiro grelhados, que davam ao seu palato um delicado sabor de tenuemente aromatizada urina.
Rins tinha em mente no que se movia suave pela cozinha, dispondo as coisas do desjejum dela sobre a bandeja encalotada. Luz e ar gélidos havia na cozinha mas fora de casa meiga manhã estival por toda parte. Fazia-o sentir-se um tico apetente.
Os carvões avermelhavam.
Outra fatia de pão e manteiga; três, quatro,: bem. Ela não gostava de prato cheio. Bem. Virou-se da bandeja, levantou a chaleira da grade e colocou-a de lado sobre o fogo. Esta ali assentou, parada e atarracada, o bico saltado para fora. Xícara de chá prestes. Bom. Boca seca. A gata andava tesa ao redor da perna da mesa com o rabo ao alto.
- Minhau!
- Oh, aí estás – disse o senhor Bloom, voltando-se do fogão.
-
A gata miou em resposta e tornou a dar voltads em redor da perna da mesa, miando.
Exactamente coom desliza sobre minha escrivaninha. Prr. Coça a minha cabeça. Prr.
O senhor Bloom olhava curiosamente, carinhosamente, a fléxil forma negra. Limpa de ver: o lustro de seu pêlo nédio, o tufo branco sob a raiz de seu rabo, os lampejantes olhos verdes. Ele inclinou-se para ela, suas mãos sobre os joelhos.
- Leite para a bichaninha – disse ele.
- Minhau! – gritou a gata.
Chamam-lhes estúpidos. Eles entendem o que dizemos melhor do que nós os entendemos. Ela entende tudo que quer. Vindicativa, também. Imagino como é que eu pareço a ela. Altura de uma torre? Não, ela pode saltar sobre mim.
- Tem medo das galinhas – disse ele zombeteiro. – Medo dos piupintinhos. Nunca vi uma bichaninha tão boba como esta bichaninha.
Cruel. Natureza dela. Curioso os ratos não guincham nunca. Parece gostarem:
- Miau – disse a gata alto.
Ela relampejou por entre seus ávidos olhos pudorcerrados, miando chorosa e longamente, mostrando-lhe os dentes lacti-brancos. Ele observava as escuras olhifendas estreitando-se cúpidas até que seus olhos se tornassem pedras verdes. Então ele se dirigiu para o armário, tomou do jarro que o leiteiro do Hanlon acabara de encher para ele, entornou espumitépido leite num pires e pousou-o de leve no soalho.
- Gurr! – gritou ela, correndo a lamber.
Observava os bigodes espetados brilhando à meia-luz no que ela emborcava três vezes e elambia agilmente. Será verdade que se a gente os corta eles não podem mais pegar ratos? Por quê? Elas brilham no escuro, talvez, as pontas. Ou são uma espécie de antenas no escuro, talvez.
Ele a ouvia lambelambendo. Presunto com ovos, não. Sem bons ovos nesta seca. É necessário água natural pura. Quinta-feira: tampouco um bom dia para rins de carneiro do Buckley. Fritos com manteiga, uma pitada de pimenta. Melhor um rim de porco do Dlugacz. Enquanto a chaleira está fervento. Ela lambia mais devagar, depois relambendo a limpo o pires. Por que são suas línguas tão ásperas? Para lamber melhor, cheias de buraquinhos porosos. Nada que ela possa comer? Ele mirou em redor de si. Não.
Com botinas rangendo de leve, ele subiu a escada até o patamar, demorou-se perto da porta do quarto de dormir. Ela poderia querer algo mais condimentado. Fatias finas de pão com manteiga é o de que gosta pela manhã. Ainda assim: de vez que a caminho.
Disse num cochicho no patamar despido:
- Vou dar um pulo na esquna. De volta num minuto.
E depois de ouvir a própria voz, acrescentou:
- Quer alguma coisa para agora?
Um fraco grunhido sonolento respondeu:
- Hum.
Não. Ela não queria nada. Ouviu então um quente suspiro denso, mais fraco, no que ela se virava e as juntas de latão folgadas da cama retiniam. Tenho de mandar ajustá-las direito. Pena. Directamente de Gibraltar. Esquecida do pouco espanhol que soube. Imagino o que o pai dela pagou por isso. Estilo antigo. Ah sim, de facto. Comprado num leilão do governador. Com um golpe seco do martelo. Duro de roer no regateio, o velho Tweedy. Sim, senhor. Em Plevna foi. Venho das fileiras rasas, senhor, e tenho orgulho disso. Ainda tivera cabeça bastante para especular em selos. Bem que aquilo era ver longe.
Sua mão apanhou o chapéu do pino do cabide acima do peswado sobretudo com iniciais e da gabardina de segunda mão do departamento de objectos perdidos. Selos: estampas de reverso colante. Estou certo de que um bando de funcionários está nessa marmita também. Certo que estão. A legenda suada dentro da copa do chapéu anunciou-lhe mudamente: chapéu Plasto de alta qualid. Ramirou rápido dentro da carneira de couro. A salvo.
Na soleira da porta, tacteou no bolso traseiro pela chave da frente. (…)






